Murano: história e arte

(pesquisa e texto Francisco Mendes)

Achados arqueológicos, no Egito e Mesopotâmia, que datam de 1500 antes de Cristo demonstram que o vidro faz parte da história humana.

Onde hoje é a Itália, os Etruscos já utilizavam vasos e utensílios de vidro produzidos localmente pelo menos há 2700 anos atrás e os Romanos dominaram a arte da produção em vidro.

Vaso Romano sec III/IV acervo Metropolitan Museum

Vaso Romano sec III/IV acervo Metropolitan Museum

A mais antiga vetreria em Veneza data do século VIII e desde então a cidade se torna o centro de produção de vidro da península itálica. Em 1291 uma lei obriga a todos os fabricantes a se mudarem para a ilha de Murano, como forma de controle e para monopolizar o conhecimento da arte de moldar e soprar o vidro.

É daí que vem a tradição de Murano e é quando se registram nomes que percorrerão toda a história do Vetro di Murano.

Angelo Barovier, mestre vidreiro, consegue produzir vidro totalmente transparente (cristallo) no século XV tornando Murano o único lugar da Europa com tecnologia para a produção de espelhos. Na mesma época surge o Lattimo, vidro opaco com aparência de leite e que buscava ser uma alternativa à porcelana proveniente da China.

Padrões e cores se multiplicam em técnicas: Filligrana, Reticello, Retortoli, Incalmo, Battuto, Murrine, Ghiaccio e não param por aí.

Alfredo Barbini, Ermanno Toso, Ercole Barovier, Dino Martens - coleções privadas

Alfredo Barbini, Ermanno Toso, Ercole Barovier, Dino Martens – coleções privadas

Mas como nem tudo são flores, no início do século XIX, a transferência do poder político para a França e a proibição da importação de vidro, faz com que apenas cinco produtores de vidro permaneçam funcionando em Murano em 1820.

A volta por cima começa a acontecer quando seis irmão abrem, em 1854, a Fratelli Toso. Antonio Salviati inicia sua produção cinco anos mais tarde, tendo entre seus sopradores Lorenzo Radi, com a intenção de produzir peças para a restauração dos mosaicos venezianos em vidro.

Em 1861, o prefeito de Veneza decide compilar a história da cidade, incluindo neste trabalho não somente a produção literária, mas também a artística e este esforço culminou com a instalação de uma escola de vidreiros.

Na Exposição Universal ocorrida em Paris em 1867, Antonio Salviati expõe mais de 500 trabalhos e ganha múltiplos prêmios, fazendo com que, em 1869, a indústria do vidro em Murano empregasse mais de 3.500 pessoas.

Antonio Salviati para Artisti Barovier - acervo Legado Arte

Antonio Salviati para Artisti Barovier – acervo Legado Arte

Mas até o final do século XIX, as peças produzidas tinham como foco a reprodução de peças antigas, desde modelos etruscos e romanos até as do auge dos séculos XV e XVI. Com a I Bienal de Veneza, em 1895, há uma mudança de cenário, com a apresentação de trabalhos em estilos da vanguarda da época, o Art Nouveau, com grande destaque para a produção da Artisti Barovier, uma das remanescentes históricas, com especial colaboração de Vittorio Zecchin, pintor e artística gráfico, que desenhou inúmeras obras para produção em vidro.

É também Vittorio Zecchin o responsável por outra mudança, desta vez no início dos anos de 1920, produzindo desenhos limpos, claros, transparentes, tornando-o o diretor artístico de uma nova companhia, a Vetri Soffiati Muranesi Capellin Venini, quando surge então Paolo Venini.

Vittorio Zecchin para MVM Capellin - acervo Legado Arte

Vittorio Zecchin para MVM Capellin – acervo Legado Arte

 

Ao final dessa década e no início dos anos 1930, A Vetreria Artistica Barovier e a Maestri Vetrai Muranesi Capellin e Co (MVM Capellin) reintroduzem as figuras de animais e as figuras humanas, tendência de grande popularidade ao longo de mais de vinte anos, na verdade, desejadas até os dias de hoje.

A produção se expande: vasos, copos, castiçais, lustres e luminárias, desenhos modernos em técnicas seculares, algumas milenares, proporcionam uma explosão de criatividade.

acervo Legado Arte

acervo Legado Arte

Após a interrupção durante a Segunda Guerra a produção retoma  e nomes como os de Ercole Barovier, Archimede Seguso, Giampaolo Martinuzzi, Alfredo Barbini, Tobia Scarpa, Flavio Poli, Giulio Radi, Dino Martens, Fulvio Bianconi, Ludovico e Laura Diaz Santillana, genro e filha de Paolo Venini, aparecem nas mais belas obras de arte produzidas em Murano.

Seguso - Sommerso - acervo Legado Arte

Seguso – Sommerso – acervo Legado Arte

Novos artistas surgiram e a produção continua até os dias de hoje e com alta qualidade.

Mas um lembrete: para quem ainda não percebeu, Murano não é na China.

Beth Santos

www.legadoarte.com.br

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